segunda-feira, 31 de março de 2014

31/03/2014 - A ALEGRIA DA QUARESMA E DA VIDA - (Is 65,18; Sl 30,2.4-6.11-13; Jo 4,43-54)

31/03/2014
Segunda-feira, 31 de março de 2014
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Is 65,17-21                Sl 30,2.4-6.11-13     Jo 4,43-54

A ALEGRIA DA QUARESMA E DA VIDA

“Alegrai-vos, pois, e regozijai-vos para sempre com aquilo que estou para criar ...” (Is 65,18)

Se o Senhor fizesse um chamado para você, você poderia encontrar alegria nele. Se Ele o chamar para uma vida em celibato, você teria motivos para se alegrar. Se o Senhor der a você e a sua esposa dez filhos, alegre-se por ter uma família numerosa. Ele nos chama ao arrependimento, nós partilhamos da grande alegria nos céus por um único pecador que se arrepende (Lc 15,7). Quando o Senhor nos concede o privilégio de sermos perseguidos por causa do Evangelho, nós devemos nos regozijar na medida em que partilhamos de seus sofrimentos (1Pd 4,13).

Existe mais alegria em sofrer com Jesus do que ter prazer sem Sua presença. A verdadeira alegria depende somente de uma resposta: “Foi criada pelo Senhor? É esta a Sua vontade?” No entanto, a alegria não significa se sentir bem, mas sim obedecer à vontade do Senhor (Sl 40,9). Isso faz com que seja possível se regozijar sempre (1Ts 5,16). Nada e nem ninguém pode tirar a nossa alegria. (Jo 16,22).

Não podemos nos sentir bem sempre, mas podemos sempre obedecer a Deus e assim sempre nos alegrarmos. De fato, não somente podemos nos regozijar no Senhor, mas também com a divina alegria que vem do Senhor. Nós podemos ter a alegria de Jesus (Jo 15,11). Mais ainda, esta divina alegria será a nossa força (Ne 8,10).

“Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito: Alegrai-vos!” (Fl 4,4).

Oração: Pai, que nesta Quaresma a alegria da minha vida alcance a muitos (At 8,8).
Promessa: “Então o pai reconheceu ser precisamente aquela a hora em que Jesus lhe dissera: “o teu filho vive”; e creu, ele e todos os da sua casa.” (Jo 4,53)
Louvor: Felipe e sua esposa deixaram trabalho, casa e segurança, para se dedicarem a uma comunidade cristã.

31-03-2014 - Se não virdes sinais extraordinários e prodígios, não acreditais (João 4,43-54)

Segunda-feira da 4ª semana da Quaresma
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Comentário do dia
Imitação de Cristo, tratado espiritual do século XV (Lisboa, Morais, 1965, rev.)
IV, 18
«Se não virdes sinais extraordinários e prodígios, não acreditais.»

«O que perscruta a majestade será oprimido pela sua glória» (Prov 25,27 Vulg). Mais pode Deus fazer que o homem compreender. […] Exige-se de ti a fé e uma vida sincera, e não a elevação da inteligência ou a sabedoria dos profundos mistérios de Deus. Se não percebes nem apreendes o que te é inferior, como compreenderás o que te está acima? Submete-te a Deus e humilha o teu parecer à fé e ser-te-á dada a luz da ciência, conforme te for útil ou necessário.

Alguns são duramente tentados na fé ou na eucaristia; isso, porém, não se deve atribuir a eles, mas ao inimigo. Não te importes, não discutas com os teus próprios pensamentos, nem respondas às dúvidas insinuadas pelo demónio, mas crê nas palavras de Deus, crês nos seus santos e profetas e de ti fugirá o inimigo. Muitas vezes de muito serve que tais coisas suporte o servo de Deus. Pois que o demónio não tenta os infiéis e pecadores, que já possui com certeza, mas os fiéis devotos, que tenta e humilha de diversos modos.

Caminha portanto com uma fé simples e certa, e aproxima-te do sacramento com suplicante respeito; e o que não consigas perceber, entrega-o com confiança a Deus omnipotente. Deus não te engana; mas engana-se aquele que em si próprio crê demais. Caminha Deus com os simples, revela-Se aos humildes, dá inteligência aos pequenos, abre os sentidos aos de espírito puro e esconde a graça dos curiosos e soberbos. A razão humana é fraca e pode errar; mas não a verdadeira fé. Todo o raciocínio natural deve seguir a fé, e não precedê-la ou infringi-la.

31-03-2014 A ORAÇÃO PESSOAL

Meditação diária de Falar com Deus
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TEMPO DA QUARESMA. QUARTA SEMANA. SEGUNDA-FEIRA

27. A ORAÇÃO PESSOAL

– Necessidade da oração. O exemplo de Jesus.

– Oração pessoal: diálogo confiante com Deus.

– Empregar os meios para rezar com recolhimento e evitar as distrações.

I. JESUS ESTAVA ORANDO em certo lugar...1 Muitas passagens do Evangelho nos mostram Jesus que se retira e fica a sós para rezar2; e o fato ganha destaque nos momentos mais importantes do seu ministério público: por ocasião do batismo3, da escolha dos Apóstolos4, na primeira multiplicação dos pães5, na Transfiguração6, etc. Era uma atitude habitual em Jesus. “Às vezes, passava a noite inteira ocupado num colóquio íntimo com seu Pai. Como cativou os primeiros discípulos a figura de Cristo em oração!”7 E como nos ajuda a cada um de nós!

Nesta Quaresma, podemos deter-nos especialmente numa cena que se contempla no Santo Rosário: a oração de Jesus no Horto das Oliveiras. Imediatamente antes de se entregar à Paixão, o Senhor dirige-se com os Apóstolos ao Horto de Getsêmani, um lugar onde tinha rezado muitas vezes, pois São Lucas diz: Jesus saiu e dirigiu-se como de costume ao monte das Oliveiras8. Mas desta vez a sua oração terá um matiz muito particular, pois chegou a hora da sua agonia.

Chegado ao Horto, disse aos que o acompanhavam: Orai para não cairdes em tentação9. Antes de retirar-se para orar, o Senhor pede, pois, aos Apóstolos que permaneçam também em oração. Sabe que dentro de breves horas se verão a braços com uma forte tentação de escândalo, quando virem o Mestre aprisionado. Anunciara-o durante a Última Ceia, e agora previne-lhes que não poderão resistir à prova se não permanecerem vigilantes e orando.

A oração nos é indispensável, porque, se abandonamos o trato com Deus, a nossa vida espiritual enlanguidece pouco a pouco. “Se se abandona a oração, primeiro vive-se das reservas espirituais..., e depois, da trapaça”10. Em contrapartida, a oração une-nos a Deus, que nos diz: Sem mim não podeis fazer nada11. Convém orar perseverantemente12, sem nunca desfalecer. Temos que falar com o Senhor e procurá-lo com insistência, em todas as circunstâncias da nossa vida. Além disso, agora, durante este tempo da Quaresma, estamos indo com Jesus Cristo a caminho da Cruz, e “sem oração, como é difícil acompanhá-Lo!”13

O Senhor ensina-nos com o exemplo da sua vida qual deve ser a nossa atitude fundamental: dialogar sempre filialmente com Deus. “Pois outra coisa, em meu parecer, não é a oração mental, senão tratar intimamente com Aquele que sabemos que nos ama e estar muitas vezes conversando a sós com Ele”14. Temos que procurar manter-nos habitualmente na presença de Deus e contemplar os mistérios da nossa fé; é um diálogo com o Senhor que não só não deve interromper-se, como deve ser alimentado no meio de todas as atividades. Mas é indispensável que seja mais intenso nos tempos que dedicamos diariamente à oração mental, pois nesses momentos meditamos na presença do Senhor, conversamos com Ele, sabendo que Ele nos vê e nos ouve verdadeiramente. A par do preceito da caridade, talvez seja a oração um dos pontos em que Jesus mais vezes insistiu na sua pregação.

II. AFASTOU-SE DELES à distância de um tiro de pedra e, ajoelhando-se, orava: Pai, se é do teu agrado, afasta de mim este cálice. Não se faça, porém, a minha vontade, mas a tua15.

Quando o sofrimento espiritual se torna de tal modo intenso que o faz entrar em agonia, o Senhor dirige-se ao Pai numa oração cheia de confiança. Chama-o Abba, Pai, e dirige-lhe palavras íntimas. Este é o caminho que também nós devemos seguir. Na nossa vida, haverá momentos de paz espiritual e outros de luta mais intensa, talvez de escuridão e de dor profunda, com tentações de desalento... A imagem de Jesus no Horto mostra-nos como devemos proceder nesses casos: com uma oração perseverante e confiada. Para avançar no caminho da santidade, especialmente quando sentimos o peso da nossa fraqueza, temos que recolher-nos em oração e em conversa íntima com o Senhor.

A oração pública (ou em comum), em que participam todos os fiéis, é santa e necessária – pois Deus quer ver os seus filhos rezarem juntos16 –, mas nunca pode substituir o preceito do Senhor: Entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai17. A liturgia é a oração pública por excelência, “é o cume para o qual tende toda a atividade da Igreja e ao mesmo tempo a fonte de que brota toda a sua força [...]. Mas a vida espiritual não se contém unicamente na participação da Sagrada Liturgia. Pois o cristão, chamado a orar em comum, deve não obstante entrar também no seu quarto e orar a seu Pai em segredo, e, além disso, conforme ensina o Apóstolo, deve rezar sem interrupções (1 Tess 5, 17)”18. Por outro lado, as orações feitas em comum com os outros cristãos também devem ser oração pessoal, enquanto os lábios as recitam com as pausas oportunas e a mente põe nelas toda a sua atenção.

Na oração pessoal, fala-se com Deus como se conversa com um amigo, sabendo-o presente e sempre atento ao que lhe dizemos, ouvindo-nos e respondendo. É nessa conversa íntima, como a que agora procuramos manter com Deus, que abrimos a nossa alma ao Senhor, para adorá-lo, dar-lhe graças, pedir-lhe ajuda e aprofundar – como os Apóstolos – nos ensinamentos divinos. “Escreveste-me: «Orar é falar com Deus. Mas de quê?» – De quê? DEle e de ti: alegrias, tristezas, êxitos e malogros, ambições nobres, preocupações diárias..., fraquezas!; e ações de graças e pedidos; e Amor e desagravo. – Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te – ganhar intimidade!”19

A nossa oração nunca pode ser anônima, impessoal, porque Deus, que redimiu todos os homens, deseja manter um diálogo com cada um deles. No fim, a salvação ou condenação dependerá da correspondência pessoal de cada um. Deve, pois, a oração ser o diálogo de uma pessoa concreta – que tem um ideal e uma profissão concreta, e determinadas amizades, e umas graças de Deus específicas – com seu Pai-Deus.

III. DEPOIS DE TER REZADO, levantou-se, foi ter com os discípulos e achou-os adormecidos de tristeza. Disse-lhes: Por que dormis? Levantai-vos e orai para não cairdes em tentação20.

Os Apóstolos não seguiram a recomendação do Senhor. Ele os deixara ali, perto dEle, para que velassem e orassem, e assim não caíssem em tentação; mas ainda não amavam o suficiente, e deixaram-se vencer pelo sono e pela fraqueza, abandonando Jesus naqueles momentos de agonia. O sono, imagem da fraqueza humana, permitiu que se apoderasse deles uma tristeza má: desfalecimento, desistência do espírito de luta.

Não cairemos nessa situação se mantivermos vivo o diálogo com Deus em cada tempo do nosso dia que dedicamos à oração. Para isso, teremos que recorrer freqüentemente aos Santos Evangelhos ou a outro livro – como este –, para que nos ajudem a aproximar-nos mais do Senhor, a centrar esse diálogo em que nada nem ninguém nos pode substituir. Assim fizeram muitos santos: “A não ser logo após a comunhão – diz Santa Teresa –, jamais ousava começar a oração sem um livro; a minha alma temia tanto estar sem ele como se fosse lutar contra muitas pessoas. Com este remédio, que era como uma companhia ou um escudo que teria que receber o ataque dos muitos pensamentos, ficava consolada”21.

Temos que empregar os meios necessários para podermos entregar-nos a essa oração mental com recolhimento: no lugar mais adequado, de acordo com as circunstâncias pessoais – sempre que seja possível, diante do Senhor no Sacrário –, e na hora que tivermos determinado no nosso plano de vida. Devemos prevenir-nos também contra as distrações, o que exige, em grande parte, a mortificação da memória e da imaginação; temos que evitar ter “os sentidos despertos e a alma adormecida”22.

Se lutarmos decididamente contra as distrações, o Senhor ajudar-nos-á a retornar ao diálogo com Ele; além disso, o Anjo da Guarda tem, entre outras, a missão de interceder por nós. O importante é não querermos estar distraídos e não nos distrairmos voluntariamente. As distrações involuntárias, que se devem à fraqueza da nossa natureza, e que procuramos afastar assim que tomamos consciência delas, não tiram o proveito nem o mérito da nossa oração. O pai e a mãe não se aborrecem quando a criança que não sabe falar fica balbuciando coisas sem sentido. Deus conhece a nossa fraqueza e tem paciência, mas nós devemos pedir-lhe: “Concedei-nos o espírito de oração”23.

Será muito grato ao Senhor ver-nos fazer o propósito de progredir na oração mental todos os dias da nossa vida, incluídos aqueles em que nos parece mais custosa, difícil e árida, pois “a oração não é problema de falar ou de sentir, mas de amar. E ama-se quando se faz o esforço de tentar dizer alguma coisa ao Senhor, ainda que não se diga nada”24. Se agirmos assim, toda a nossa vida ficará enriquecida e fortalecida. A oração é um farol potentíssimo que dá luz para iluminar melhor os nossos problemas, para conhecer melhor as pessoas e desse modo poder ajudá-las no seu caminhar para Cristo. A oração deixa na alma uma atmosfera de serenidade e de paz que se transmite aos outros. A alegria que produz é uma antecipação da felicidade celestial.

Nenhuma pessoa deste mundo soube conviver com Jesus como sua Mãe Santa Maria, que passou longas horas olhando-o, falando com Ele, tratando-o com toda a simplicidade e veneração. Se recorrermos à nossa Mãe do Céu, em breve aprenderemos a falar com Jesus cheios de confiança, e a segui-lo de perto, muito de perto, até à sua Cruz.

(1) Lc 11, 1-3; (2) cfr. Mt 14, 23; Mc 1, 35; Lc 5, 16; etc.; (3) cfr. Lc 3, 21; (4) cfr. Lc 6, 12; (5) cfr. Mc 6, 46; (6) cfr. Lc 9, 29; (7) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 119; (8) Lc 22, 39; (9) Lc 22, 40; (10) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 445; (11) Jo 15, 5; (12) cfr. Lc 18, 1; (13) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 89; (14) Santa Teresa, Vida, 8, 2; (15) Lc 22, 41-42; (16) cfr. Mt 18, 19-20; (17) Mt 6, 6; (18) Conc. Vat. II, Const. Sacrossanctum Concilium, 10, 12; (19) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 91; (20) Lc 22, 45-46; (21) Santa Teresa, Vida, 6, 3; (22) cfr. Josemaría Escrivá, Caminho, n. 368; (23) Preces de laudes, Liturgia das Horas da segunda-feira da quarta semana da Quaresma; (24) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 464.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O REINO ESTÁ ENTRE NÓS - Comentário ao Evangelho - (Lucas 11,14-23)

Comentário ao Evangelho

O REINO ESTÁ ENTRE NÓS (Lucas 11,14-23)

A presença do Reino de Deus na história da humanidade revelava-se no poder de Jesus de expulsar os demônios, libertando todo ser humano desse poder opressor. Essa libertação significava a retomada do senhorio de Deus na vida de quem era dominado pelo maligno, possibilitando-lhe, novamente, a vivência do amor e da solidariedade.
Jesus personificava o Reino de Deus na medida em que estava todo centrado no Pai, cujas obras buscava realizar. Em suas ações, revelava-se "o dedo de Deus" na vida de tantas pessoas privadas de sua dignidade.
Contudo, isto não era evidente! Só quem estava sintonizado com Jesus tinha condições de perceber Deus agindo por meio dele. Caso contrário, corria-se o risco de interpretá-lo mal e fazê-lo objeto de falsas acusações.
Foi o que aconteceu quando o acusaram de agir com o poder de Belzebu, o chefe dos demônios. Ou quando exigiam dele sinais sempre mais mirabolantes, como prova da autenticidade do seu messianismo.
O fato de ser incompreendido não impedia Jesus de seguir adiante. Movia-o somente a consciência de dever ser fiel ao Pai. Por isso, não cessava de dar testemunho do amor que Deus derramava sobre a humanidade.

Oração
Pai, transforma-me em instrumento de teu amor misericordioso, a exemplo de Jesus. Por onde eu passar, possa ser testemunha de que teu Reino já chegou para nós.

(O comentário do Evangelho é feito pelo Pe. Jaldemir Vitório – Jesuíta, Doutor em Exegese Bíblica, Professor da FAJE – e disponibilizado neste Portal a cada mês).

Não permita que a discórdia semeie a divisão em sua vida

http://homilia.cancaonova.com/homilia/nao-permita-que-a-discordia-semeie-a-divisao-em-sua-vida/

A divisão acontece quando não somos mais capazes de suportar as diferenças, porque queremos o mundo do nosso jeito, da nossa forma, da nossa maneira de pensar. Nós, muitas vezes, somos usados pelo mal e usamos o mal para semear a separação e a divisão no meio de nós.

”Todo reino dividido contra si mesmo será destruído; e cairá uma casa por cima da outra” (Lucas 11,17).

A Palavra de Deus, hoje, nos dá a condição para vermos a ação do demônio no meio de nós; melhor ainda: a ação do diabo, ele é o ”diabolus”, aquele que divide, separa; aquele que não é a favor do que é unido e estável. Ele dividiu o Reino de Deus, separando-se dos anjos que fizeram a vontade do Senhor; a missão do diabo no mundo é justamente esta: lançar a divisão e a separação.

Vivemos em um mundo dividido pela desigualdade, vivemos em um mundo dividido por limites geográficos, políticos e por tantas outras coisas. Mas a grande divisão não é esta, a grande divisão é aquela que está no fundo do coração humano, fruto do orgulho e da autossuficiência. Fato que leva, muitas vezes, o ser humano a acreditar que é melhor do que o outro, que é mais importante do que o outro e que pode mais do que o outro.

A divisão nos leva a nos acusarmos uns aos outros, colocando a culpa neste ou naquele e, então, não somos mais capazes de operar a conciliação e a reconciliação. Basta ver como se dividem nossas casas e nossas famílias; não estou falando de divergências e de diversidades de opinião e de expressões de vida, que são coisas saudáveis e maravilhosas, pois, na mesma casa, um pode pensar de um jeito, outro de outro; o marido pode ver de uma forma e a mulher de outra. Isso não é a divisão a que me refiro.

A divisão [causada pelo mal] é quando um se põe contra o outro, quando um não é mais capaz de conviver com o outro; quando não somos mais capazes de suportar as diferenças, porque queremos o mundo do nosso jeito, da nossa forma e da nossa maneira de pensar. Nós, muitas vezes, somos usados pelo mal e usamos o mal para semear a separação e a divisão no meio de nós.

A divisão, muitas vezes, tenta reinar na Igreja, na casa de Deus, por intermédio dos grupos e das lideranças que, muitas vezes, estão à frente de nossa Igreja. E já vimos muita coisa de Deus se acabar, se destruir, não porque Deus quisesse, mas por causa da divisão e da desunião humana. Já vimos esse mal em nossas casas, em nossas famílias; por isso, neste tempo favorável, que é o tempo da Quaresma, precisamos pedir perdão a Deus por todas as vezes em que nos deixamos levar pelo espírito da divisão, pelo espírito da discórdia e, por todas as vezes que somos levados por este mesmo espírito a semear a discórdia, a divisão e a separação no Reino de Deus e entre os irmãos.

Que Deus abençoe você!

SINCERIDADE E VERACIDADE

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TEMPO DA QUARESMA. TERCEIRA SEMANA. QUINTA-FEIRA

23. SINCERIDADE E VERACIDADE

– O “demônio mudo”. Necessidade da sinceridade.

– Amor à verdade. Sinceridade em primeiro lugar conosco próprios. Sinceridade com Deus. Sinceridade na direção espiritual e na confissão. Meios para adquirir esta virtude.

– Sinceridade e veracidade com os outros. A palavra do cristão. A lealdade e a fidelidade, virtudes relacionadas com a veracidade. Outras conseqüências do amor à verdade.

I. O EVANGELHO DA MISSA diz-nos que Jesus estava expulsando um demônio que era mudo, e, mal o demônio saiu, o mudo se pôs a falar e a multidão ficou admirada1.

A doença, um mal físico normalmente sem relação alguma com o pecado, é um símbolo do estado em que se encontra o homem pecador; espiritualmente, é cego, surdo, paralítico... As curas que Jesus realiza, além do fato concreto e histórico da cura, são também um símbolo: representam a cura espiritual que Ele veio realizar nos homens. Muitos dos gestos de Jesus para com os doentes são como que uma imagem dos sacramentos.

A propósito do relato evangélico que se lê na Missa, São João Crisóstomo comenta que o homem em questão “não podia apresentar por si mesmo a sua súplica, pois era mudo; e também não podia pedir aos outros que a apresentassem por ele, pois o demônio, juntamente com a língua, tinha-lhe atado a alma”2. O demônio trazia-o bem aprisionado.

Quando, na oração pessoal, não falamos ao Senhor sobre as nossas misérias e não lhe suplicamos que as cure, ou quando não expomos essas nossas misérias na direção espiritual, quando ficamos calados porque a soberba fechou os nossos lábios, a doença torna-se praticamente incurável. Calar os danos sofridos pela alma é uma atitude que costuma fazer-se acompanhar pela surdez; a alma torna-se surda aos apelos de Deus, rejeita os argumentos e razões que lhe poderiam dar luz para retornar ao bom caminho. Pelo contrário, ser-lhe-á fácil abrir com sinceridade o coração se procurar viver este conselho: “Não te assustes ao notares o lastro do pobre corpo e das humanas paixões: seria tolo e ingenuamente pueril que descobrisses agora que «isso» existe. A tua miséria não é obstáculo, mas acicate para que te unas mais a Deus, para que o procures com constância, porque Ele nos purifica”3.

Ao dizermos hoje, no salmo responsorial da Missa: Oxalá escuteis hoje a sua voz: não endureçais o vosso coração4, formulemos o propósito de não resistir à graça, sendo sempre muito sinceros.

II. PARA VIVERMOS UMA VIDA autenticamente humana, temos de amar muito a verdade, que é, de certo modo, um valor sagrado e requer, portanto, que seja tratada com respeito e amor. A verdade fica às vezes tão obscurecida pelo pecado, pelas paixões e pelo materialismo que, se não a amássemos, não nos seria possível reconhecê-la. É tão fácil aceitar a mentira quando vem em ajuda da preguiça, da vaidade, da sensualidade, do falso prestígio!

O Senhor ama tanto esta virtude que declarou a respeito de si mesmo: Eu sou a Verdade5. O demônio é mentiroso e pai da mentira6: tudo o que promete é falso. Jesus pedirá ao Pai para os seus, para nós, que sejamos santificados na verdade7.

Hoje fala-se muito de sermos sinceros, autênticos; não obstante, os homens tendem a ocultar-se no anonimato e, com freqüência, disfarçam os verdadeiros motivos dos seus atos diante de si próprios e dos outros. Tentam também passar anonimamente diante de Deus e recusam o encontro pessoal com Ele na oração e no exame de consciência. E, no entanto, não poderemos ser bons cristãos se não houver sinceridade conosco próprios, com Deus e com os outros.

A sinceridade conosco próprios leva-nos a reconhecer as nossas faltas sem dissimulá-las, sem procurar falsas justificações; faz-nos estar sempre alerta diante da tentação de “fabricar” a verdade, de pretender que seja verdade aquilo que nos convém, como é o caso daqueles que pretendem enganar-se a si próprios dizendo que, “para eles”, não é pecado isto ou aquilo que é proibido pela Lei de Deus. O subjetivismo, as paixões e a tibieza podem contribuir para a insinceridade conosco próprios. A pessoa que não vive essa sinceridade radical deforma com facilidade a sua consciência e chega à cegueira interior a respeito das coisas de Deus.

Outro modo freqüente de nos enganarmos é não querer chegar às conseqüências da verdade para não ter que enfrentá-las ou para não dizer toda a verdade: “Nunca queres esgotar a verdade. – Umas vezes, por correção. Outras – a maioria –, para não passares um mau bocado. Algumas, para evitá-lo aos outros. E, sempre, por covardia. – Assim, com esse medo de aprofundar, jamais serás homem de critério”8.

Para sermos sinceros, o primeiro meio que temos de empregar é a oração: pedir ao Senhor que nos ajude a ver os erros, os defeitos do caráter..., que nos dê fortaleza para reconhecê-los como tais, e valentia para pedir ajuda e lutar. Em segundo lugar, o exame de consciência diário, breve mas eficaz, para nos conhecermos. Depois, a direção espiritual e a Confissão, abrindo de verdade a alma, dizendo toda a verdade, com desejos de que conheçam a nossa intimidade para que nos possam ajudar no nosso caminho para Deus. “Não permitais que se aninhe na vossa alma um foco de podridão, por muito pequeno que seja. Falai. Quando a água corre, é límpida; quando se estanca, forma um charco cheio de porcaria repugnante, e de água potável converte-se em caldo de bichos”9. Com freqüência, dizer em primeiro lugar aquilo que mais nos custa é um propósito que nos ajudará a ser sinceros.

Se afastarmos esse demônio mudo com a ajuda da graça, verificaremos que um dos frutos imediatos da sinceridade é a alegria e a paz da alma. Por isso pedimos a Deus essa virtude, para nós e para os outros.

III. SINCEROS COM DEUS, conosco próprios e com os outros.

Se não o formos com Deus, não poderemos amá-lo nem servi-lo; se não o formos conosco próprios, não poderemos ter uma consciência bem formada, que ame o bem e rejeite o mal; se não o formos com os outros, a convivência tornar-se-á impossível e não agradaremos a Deus.

Os que nos rodeiam devem saber que somos pessoas verazes, que nunca mentem ou enganam. A nossa palavra de cristãos e de homens e mulheres honrados deve ter um grande valor diante dos outros: Dizei “sim” se for sim; “não” se for não, pois tudo o que passa disso vem do Maligno10. O Senhor quer realçar a palavra do homem de bem que se sente comprometido pelo que diz.

O amor à verdade deve levar-nos a retificar, se nos enganamos. “Acostuma-te a não mentir nunca de maneira consciente, nem para te desculpares nem por outro motivo qualquer, e para isso, lembra-te de que Deus é o Deus da verdade. Se por acaso faltas à verdade por um erro, retifica-o imediatamente, se podes, com alguma explicação ou reparação; faze-o assim, pois uma verdadeira explicação tem mais graça e força para desculpar do que a mentira”11.

Outra virtude relacionada com a veracidade e a sinceridade é a lealdade, que é a veracidade na conduta: manter a palavra dada, as promessas, os acordos. Os nossos amigos e as pessoas com quem nos relacionamos devem conhecer-nos como homens e mulheres leais. A fidelidade é a lealdade a um compromisso estrito que se contrai com Deus ou diante dEle. Jesus Cristo foi conhecido comoaquele que é fiel e veraz12. E a Sagrada Escritura fala constantemente de Deus como Aquele que é fiel ao pacto com o seu povo, Aquele que cumpre com fidelidade o plano de salvação que prometeu13. A deslealdade é sempre uma fraude, ao passo que a lealdade é uma virtude indispensável na vida pessoal e na vida social. É sobre ela que assentam, por exemplo, a vida conjugal, o cumprimento dos contratos, a atuação dos governantes...

O amor à verdade há de levar-nos também a não fazer juízos precipitados, baseados numa informação superficial sobre as pessoas ou os fatos. É necessário ter um sadio espírito crítico em relação às notícias divulgadas pelo rádio, televisão, jornais ou revistas, que muitas vezes são tendenciosas ou simplesmente incompletas. Com freqüência, os fatos objetivos aparecem envoltos em opiniões ou interpretações que podem dar uma visão deformada da realidade. Devemos ter um cuidado extremo com as notícias que se referem direta ou indiretamente à Igreja. Por amor à verdade, devemos pôr de parte os canais informativos sectários que turvam as águas, e procurar uma informação objetiva, veraz e criteriosa, ao mesmo tempo que contribuímos para a reta informação dos outros. Então se tornará realidade a promessa de Jesus: A verdade vos fará livres14.

(1) Lc 11, 14; Mt 9, 32-33; (2) São João Crisóstomo, Homilias sobre os Evangelhos, 32, 1; (3) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 134; (4) Sl 94; (5) Jo 14, 6; (6) Jo 8, 44; (7) cfr. Jo 17, 17 e segs.; (8) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 33; (9) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 181; (10) Mt 5, 37; (11) São Francisco de Sales, Intr. à vida devota, III, 30; (12) Apoc 19, 11; (13) cfr. Rom 3, 7; (14) Jo 8, 32.

quarta-feira, 26 de março de 2014

ESCOLA DE OBEDIÊNCIA (Dt 4,1.5-9; Sl 147,12-13.15-16.19-20; Mt 5,17-19) (26/03/2014)

Quarta-feira, 26 de março de 2014                                          

Dt 4,1.5-9                  Sl 147,12-13.15-16.19-20              Mt 5,17-19

ESCOLA DE OBEDIÊNCIA

“Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e as normas que eu hoje vos ensino a praticar, a fim de que vivais e entreis para possuir a terra que vos dará Iahweh.” (Dt 4,1)

A vida de um cristão é uma vida de obediência (1Pd 1,2). Como seguidores de Cristo, devemos obedecer a Ele em todas as coisas, mesmo a morte na cruz (Fl 2,8). Obedecemos aos mandamentos de Deus cuidadosamente. “Portanto, cuidai de pô-los em prática, pois isto vos tornará sábios e inteligentes aos olhos dos povos ...” (Dt 4,6). Obedecemos à lei de Deus em detalhes. Jesus disse: “... até que passem o céu e a terra, não será omitido nem um só “i”, uma só vírgula da Lei, sem que tudo seja realizado.” (Mt 5,18). Obedecemos ao Senhor com exatidão, sem nos desviar para a direita ou para a esquerda (Dt 5,32). Obedecemos ao Senhor com alegria. Realizar a vontade de Deus é o que esperamos (Sl 40,9). Obedecemos ao Senhor em agradecimento. É um privilégio obedecer ao Senhor. Nossa obediência é cuidadosa, detalhada, exata, alegre e agradecida. Obedecemos porque amamos ao Senhor (Jo 15,10).

Não obedecemos ao Senhor escrupulosamente. Sabemos que o Senhor nos ama. Cristianismo não é possuir um registro perfeito, mas sim receber o perdão e a misericórdia de Deus. Não obedecemos ao Senhor de má vontade. Não nos aborrecemos quando não seguimos o nosso caminho. Ao invés disso, amamos o Senhor.

Nesta Quaresma, agradeça a Deus por perceber que existe algo mais na vida do que cuidar de nossos próprios assuntos. Agradeça a Ele a oportunidade de obedecer e, assim, amá-Lo.

Oração: Pai, perdoe-me por desobedecê-Lo. Dê-me a graça de amá-Lo através da obediência à Igreja e à Bíblia.
Promessa: “De fato! Qual a grande nação cujos deuses lhe estejam tão próximos como Iahweh nosso Deus, todas as vezes que o invocamos?” (Dt 4,7)
Louvor: O Doutor Vinicius pediu a Jesus que curasse sua paciente de forte enxaqueca. A dor a deixou de imediato.

A Igreja e o aborto - Parte III

Uma síntese histórica
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São Paulo, 21 de Março de 2014 (Zenit.org) Ivanaldo Santos | 197 visitas

Documentos dos primeiros cristãos

A rejeição ao aborto aparece em toda a história da Igreja, desde os documentos dos primeiros cristãos, como, por exemplo, a Didaqué[i], a qual explicitamente recomenda que “Não mate a criança no seio de sua mãe [o aborto], nem depois que ela tenha nascido [o infanticídio]” (n. 2, 2). A Didaqué foi escrita provavelmente no final da década de 90 d. C., logo, neste período, ainda haviam apóstolos vivos. Por exemplo, o apóstolo João só morre, em Éfeso, no ano 103 d. C. Esse fato demonstra como a rejeição ao aborto era presente na geração apostólica e nos primeiros cristãos. Já a Epistola de Barnabé[ii], outro documento cristão do final do século I,analogamente a Didaqué,recomenda: “Não farás morrer a criança no seio da mãe [o aborto], tampouco após o nascimento [o infanticídio]”. Assim como a Didaqué, a Epistola de Barnabé também foi publicada antes da morte do apóstolo João. Como se pode ver, desde a geração apostólica que os cristãos rejeitam o aborto.

Após a publicação da Didaché e da Epistola de Barnabé se dá uma linha continua de testemunhos inequívocos dos Padres da Igreja e dos escritores eclesiásticos, do Oriente e do Ocidente, sem nenhuma voz discordante. Tetuliano, Santo Agostinho e Cesário de Arles são os autores deste período que possuem mais intervenções em relação ao aborto. Apenas como exemplo cita-se a seguinte passagem de Santo Agostinho: “Às vezes, chega a tanto esta libidinosa crueldade, ou melhor, libido cruel, que empregam drogas esterilizantes, e, se estas resultam ineficazes, matam no seio materno o feto [o aborto] concebido e o jogam fora, preferindo que sua prole se desvaneça antes de ter vida, ou, se já vivia no útero, matá-la antes que nasça [o aborto]. Repito: se ambos são assim, não são conjugues, e se tiveram esta intenção desde o princípio, não celebraram o matrimônio, mas apenas pactuaram um concubinato”[iii].

Aqui cabe ressaltar a dúvida de Santo Agostinho e de outros teólogos – dentre eles Santo Tomás – sobre o início da vida. É verdade que pela tradução grega da Bíblia foi criada uma distinção entre feto formado e feto não formado (distinção derivada do pensamento grego e não existente no texto hebraico original de Êxoto 21, 22-23). Porém, ainda que estes teólogos – pelas poucas ferramentas científicas que possuíam – tivessem realmente tal dúvida, jamais defenderam que o aborto seria lícito. Pelo contrário, Santo Agostinho afirma que ainda que não estivessem formados (segundo a sua concepção) mereciam todo o respeito de uma vida humana por aquilo que chegariam a ser.

O Magistério da Igreja, ainda sem entrar nessa questão específica durante os primeiros séculos, sempre condena claramente o aborto. Nos primeiros séculos, pela evidência do crime cometido, não existem textos doutrinais do Magistério, porém existem penas concretas – sanções canônicas – que demonstram a gravidade do pecado. Os primeiros documentos em relação a isso são os Concílios de Elvira (no ano de 305 d. C.) e de Ancira (no ano de 314 d. C.). Este último excluía da comunhão, por toda a vida, à mulher que realizasse um aborto e estabelecia uma penitência de dez anos para que pudesse voltar à comunidade eclesial (ainda sem poder comungar). Essas penas eram locais e variavam de tempo de um país para outro – porém, de modo ininterrupto e universal, o aborto sempre foi colocado entre os pecados mais graves e, consequentemente, mais severamente punidos.

Ainda sobre a posição dos cristãos primitivos, em uma carta datada do ano de 374 d. C., tratando da disciplina eclesiástica a ser aplicada aos vários tipos de pecadores, São Basílio Magno, Bispo de Cesaréia, afirma que tanto a pessoa que fornece as drogas para fazer um aborto, quanto a mulher que as toma são culpadas de assassinato. A seguinte passagem, particularmente interessante, se refere aos primeiros: "Qualquer pessoa que propositadamente destrói um feto [realiza um aborto] incorre nas penas de assassinato. Nós não especulamos se o feto está formado ou não formado"[iv].

O cristianismo, desde as primeiras comunidades cristãs primitivas, buscou integrar em seu meio os diversos grupos excluídos da grande sociedade (mulheres, estrangeiros, deficientes físicos, etc). Isso fez que “por uma opção consciente nossa cultura reconhece como homem: doentes incuráveis, excepcionais, alienados, seres humanos acéfalos sem a mínima possibilidade de alcançar o nível da consciência, e, sobretudo, a vida ainda não nascida, mas concebida”[v]. É por causa disso que, do ponto de vista da doutrina e do Magistério da Igreja, pensar em um “direito ao aborto seria um contrassenso, uma aberração”[vi].

[i] DIDAQUÉ. Catecismo dos primeiros cristãos para as comunidades de hoje. São Paulo: Paulus, 1997.

[ii] EPISTOLA DE BARNABÉ. In: Veritais Splendor. Disponível em http://www.veritatis.com.br/patristica/obras/1405-epistola-de-barnabe.  Acessado em 10/11/2013.

[iii] SANTO AGOSTINHO. De nuptiis et concupiscentia. Livro 1, Capítulo 15.

[iv] BETTENCOURT, Dom Estevão. São Basílio (+379) e a Defesa da Vida. In: Pergunte e Responderemos, n. 346, março 1991.

[v] SNOEK, Jaime. Aspectos biológicos, éticos e jurídicos do aborto. In: Revista Eclesiástica Brasileira, v. 31, fasc. 124, dezembro, 1971, p. 887.

[vi] SNOEK, Jaime. Aspectos biológicos, éticos e jurídicos do aborto. op., cit, p. 888.

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A Igreja e o aborto - Parte IV

Uma síntese histórica
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São Paulo, 24 de Março de 2014 (Zenit.org) Ivanaldo Santos | 183 visitas

Idade Média

Na Idade Média Tomás de Aquino[i], um dos grandes pensadores da humanidade, debateu e condenou o aborto.  Inicialmente afirma-se que Tomás de Aquino não escreveu um livro ou tratado sobre a problemática do aborto. Acima de tudo Tomás é um pensador preocupado com as questões metafísicas e éticas que envolvem o ser humano. Por isso, grande parte de sua obra versa sobre esses temas. No entanto, ele deixou, ao longo de sua vasta obra, referências diretas e explícitas sobre o aborto.

No entanto, Tomás de Aquino distingue o aborto em duas categorias, sendo elas: o aborto natural e o aborto voluntário. No aborto natural o próprio organismo humano, por motivos diversos e expressamente médicos, expulsa, antes do tempo, o feto e, com isso, promove a morte do mesmo. Já o aborto voluntário[ii] é quando o indivíduo procura, de forma artificial e propositadamente, expulsar o feto de dentro do ventre materno, antes do momento apropriado para o nascimento e, com isso, provocar a morte do mesmo. Na perspectiva do Aquinate, o aborto voluntário trata-se de uma forma de assassinato e de um tipo de esterilização parcial, pois apesar do indivíduo continuar, na maioria dos casos, podendo engravidar e ter outros filhos, a gravidez interrompida artificialmente não gera nenhum filho.

Sem contar que Tomás de Aquino condena o uso do veneno da esterilidade, ou seja, dos anticoncepcionais que ou impedem a gravidez ou então, quando esta já está em pleno processo de desenvolvimento, impedem o desenvolvimento do feto e, com isso, provocam a realização de um aborto voluntário. Para ele[iii] quem procura tais métodos anti-natalidade, que atuam contra a natureza, mesmo sendo legalmente casados não podem receber o nome de cônjuges, pois não buscam conscientemente a realização plena do casamento, a qual se dá com a concepção e o nascimento dos filhos. Uma família só está totalmente formada quanto existe os cônjuges e os filhos. Impedir, por meio do aborto ou outro método anti-natalidade, o nascimento dos filhos é impedir o desenvolvimento natural da própria família.

No caso explicito do aborto, Tomás de Aquino afirma que de “nenhum modo é lícito matar ao inocente [o feto ainda no ventre da mãe]”[iv]. Além disso, ele afirma que o que “fere a mulher grávida faz algo ilícito, e, por esta razão, se disso resulta a morte da mulher ou do feto animado, não se desculpa do crime de homicídio, sobretudo, quando a morte segue certamente a esta ação violenta”[v].

Para ele a prática abortiva trata-se, pois, de um pecado gravíssimo, porque não mata somente o corpo, mas também a alma. É uma prática que se enquadra dentro do mandamento bíblico que determina: “Não Matarás” (Êxoto 20, 13; 23, 7; Deuteronômio 5, 17). Em suas palavras: “alguns matam somente o corpo, mas outros matam a alma, tolhendo-a a vida da graça, ou seja, arrastando-a ao pecado mortal; outros, porém, matam a ambos, o corpo e a alma: são os suicidas e aqueles que matam as crianças que ainda não nasceram [por meio da prática do aborto]”[vi]. Em Tomás de Aquino o aborto é uma das possibilidades de manifestação do homicídio qualificado, ou seja, é quando há um assassinato, neste caso do feto, com a clara intenção de cometer um crime.

Em grupos e ambientes que defendem o aborto e dentro de setores que, dentro da Igreja, se alto proclamam de progressistas, modernos e vanguarda teológica; é comum se encontrar um tipo de argumentação que afirma, dentre outras coisas, que Tomás de Aquino vê o aborto apenas como um ato antiético, mas que não chega a condenar a sua prática. Essa afirmação é uma tentativa de se buscar algum fundamento, mesmo que indireto, para se defender o aborto. O problema é que esse tipo de fundamentação é superficial e, em grande medida, falta de uma leitura mais atenta e analítica da obra do Aquinate. Se a obra de Tomás de Aquino for lida com atenção se verá que ele coloca dentro do mandamento do “Não Matarás” o aborto. Para ele o aborto é um assassinato de uma pessoa e, por isso, deve ser evitado de todas as formas.

Sobre a perspectiva do aborto na Idade Média a Declaração sobre o aborto provocado, da Congregação para a Doutrina da Fé, afirma: “É certo que, na altura da Idade Média em que era opinião geral não estar a alma espiritual presente no corpo senão passadas as primeiras semanas, se fazia uma distinção quanto à espécie do pecado e à gravidade das sanções penais. Excelentes autores houve que admitiram, para esse primeiro período, soluções casuísticas mais suaves do que aquelas que eles davam para o concernente aos períodos seguintes da gravidez. Mas, jamais se negou, mesmo então, que o aborto provocado, mesmo nos primeiros dias da concepção fosse objetivamente falta grave. Uma tal condenação foi de fato unânime”[vii].

[i] Sobre a reflexão de Tomás de Aquino sobre o aborto, recomenda-se consultar: SANTOS, Ivanaldo. Tomás de Aquino e o aborto. In: Teologia em Questão, v. X, p. 43-62, 2012; FAITANIN, Paulo. Acepção teológica de pessoa em Tomás de Aquino. In: Aquinate, Niterói, Rio de Janeiro, v. 3, p. 47-58, 2006.

[ii] AQUINO, Tomás. In IV Sent., d. 31, q.2, a.3, exp.

[iii] AQUINO, Tomas. In IV Sent., d. 31, q.2, a.3, exp.

[iv] AQUINO, Tomas. S. Theo., II-II, q. 64, a.6, e.

[v] AQUINO, Tomás. S. Theo., II-II, q. 64, a.8, ad2.

[vi] AQUINO, Tomás. In decem pracetis, a.7.

[vii] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTIRNA DA FÉ. Declaração sobre o aborto provocado. Cidade do Vaticano, 18 de novembro de 1974, n. 7.

(24 de Março de 2014) © Innovative Media Inc.

A Igreja e o aborto - Parte V

Uma síntese histórica
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São Paulo, 25 de Março de 2014 (Zenit.org) Ivanaldo Santos | 119 visitas

Modernidade e sociedade contemporânea

Sobre a relação entre a Igreja e o aborto, ao longo da história[i], a Declaração sobre o aborto provocado faz a seguinte síntese histórica: “dentre os muitos documentos, bastará recordar apenas alguns. Assim: o primeiro Concílio de Mogúncia, em 847, confirma as penas estabelecidas por Concílios precedentes contra o aborto; e determina que seja imposta a penitência mais rigorosa às mulheres ‘que matarem as suas crianças ou que provocarem a eliminação do fruto concebido no próprio seio’. O Decreto de Graciano refere estas palavras do Papa Estêvão V: ‘ É homicida aquele que fizer perecer, mediante o aborto, o que tinha sido concebido’.  Santo Tomás, Doutor comum da Igreja, ensina que o aborto é um pecado grave contrário à lei natural. Nos tempos da Renascença, o Papa Sisto V condena o aborto com a maior severidade. Um século mais tarde, Inocêncio XI reprova as proposições de alguns canonisas laxistas, que pretendiam desculpar o aborto provocado antes do momento em que certos autores fixavam dar-se a animação espiritual do novo ser. Nos nossos dias, os últimos Pontífices Romanos proclamaram, com a maior clareza, a mesma doutrina. Assim: Pio XI respondeu explicitamente às mais graves objeções; Pio XII excluiu claramente todo e qualquer aborto direto, ou seja, aquele que é intentado como um fim ou como um meio para o fim”[ii].

No século XX e especificamente na sociedade contemporânea, também chamada de modernidade tardia ou de pós-modernidade, a Igreja não cansou de condenar o aborto. Por exemplo, o Papa João XXIII, na Encíclica Mater et Magistra, recordou, com grande precisão, o ensinamento dos Padres da Igreja sobre o caráter sagrado da vida, “a qual, desde o seu início, exige a ação de Deus criador”[iii]. Por isso, jamais se pode pensar em uma legalidade para o aborto e para qualquer outra manifestação da cultura da morte.

Com relação ao aborto e a prática de outras formas de controle da natalidade e/ou controle populacional, até o final do século XIX e início do XX a Igreja, apesar de sua doutrina, quase não pregava contra essas formas. O motivo é que a doutrina católica condenava – e continua a condenar – as práticas que impedem a gravidez e o nascimento (esterilização, uso de anticoncepcionais, realização do aborto, etc), mas naquele momento histórico havia poucos métodos anticoncepcionais disponíveis ao grande público, sem contar que os governos e as empresas privadas, em sua maioria, quase não tinham políticas de incentivo a anti-natalidade. Essa postura mudou radicalmente no início do século XX, quando alguns governos, setores ligados a empresas privadas e a indústria farmacêutica, partidos políticos, grupos feministas e até mesmo setores ligados a intelectualidade universitária passaram a incentivar e a financiar a prática e difusão de métodos e técnicas anti-natalidade. Nesse contexto, o aborto foi uma técnica anti-natalidade amplamente utilizada e incentivada[iv].

No entanto, já no início do século XX a Igreja promoveu uma grande mudança em sua política de orientação para a natalidade, ou seja, passou a condenar e, ao mesmo tempo, orientar os fiéis e a sociedade sobre os males e os perigos do aborto e dos demais métodos de controle da natalidade. Esse processo teve início, de forma oficial, quando, em 1907, o padre John R. Ryan, publicou, na Catholic Encyclopedia, um artigo criticando as políticas anti-natalidades desenvolvidas pelo neomalthusianismo, as quais pregavam – e continuam a pregar – que o crescimento da pobreza é um forte fator de desagregação social e risco de crises econômicas e políticas. Para evitar isso é preciso, entre outras coisas, combater o crescimento da pobreza por meio da eliminação dos pobres. Entre as formas de eliminação defendidas pelo neomalthusianismo encontra-se a realização, de forma ampla e sem restrições, do aborto.

A Igreja condena o aborto por se tratar da “maior de todas as formas de exclusão social que existem”[v]. E isso acontece porque ele promove a exclusão radical, a exclusão da própria vida, do próprio ato de viver. E essa exclusão acontece justamente numa época em que a ciência e a economia conseguem dispor, em benefício do ser humano, todos os recursos necessários e suficientes para a manutenção da vida.

Até o Concílio Vaticano II, o qual se esforçou ao máximo para não condenar nenhuma estrutura humana e social, mas reserva para o aborto uma condenação dura e objetiva, classificando-o de “crime nefando”[vi].

A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, promulgada pelo Concílio Vaticano II, condena todas as manifestações de violência que se opõem a vida humana. O aborto é oficialmente e literalmente colocado na lista de violências que se opõem a vida e que, por isso, são condenadas por essa Constituição. Nas palavras do documento da Igreja: “[...] tudo quanto se põe à vida, como seja toda espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário. Todas essas coisas e outras semelhantes são infamantes; ao mesmo tempo que corrompem a civilização humana, desonram mais aqueles que assim procedem, do que os que padecem injustamente; e ofendem gravemente a honra devida ao Criador”[vii].

O Catecismo da Igreja Católica, o qual é a “exposição completa e íntegra da doutrina católica”[viii], deixa bem claro que a Igreja e o fiel cristão devem sempre condenar o aborto e, por causa disso, manter distância dessa prática noviça a vida humana.

Nas palavras do Catecismo da Igreja Católica a “vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento de sua existência, o ser humano deve ver reconhecido os seus direitos de pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo ser inocente à vida”[ix]. É justamente por causa disso que a “cooperação formal para um aborto constitui uma falta grave. A Igreja sanciona com uma pena canônica de excomunhão este delito contra a vida humana. ‘Quem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae’ ‘pelo próprio fato de cometer o delito’"[x]. Além disso, o Catecismo da Igreja Católica lembra que “desde o século I, a Igreja afirmou a maldade moral de todo aborto provocado. Este ensinamento não mudou. Continua invariável. O aborto direto, quer dizer, querido como um fim ou como um meio, é gravemente contrário à lei moral: ‘Não matarás o embrião por aborto e não farás perecer o recém-nascido’”[xi].

A condenação ao aborto chega até o Documento de Aparecida. Nesse documento eclesial a Igreja é apresentada como um “serviço de caridade”[xii]. Por causa disso, o próprio Documento de Aparecida, constata que o “aborto faz duas vítimas: por certo a criança, mas também a mãe”[xiii]. Na visão desse documento o aborto é uma violência brutal, antiética e mesquinha. Uma violência causada por uma série de interesses econômicos, políticos e ideológicos. Na maioria das vezes, a mulher, a mãe, e a criança desconhecem a existência desses interesses antiéticos, dessas formas oriundas da cultura da morte. É por causa disso que o documentorecomenda que a Igreja deva “acolher com misericórdia aquelas que abortaram, para ajudá-las a curar suas graves feridas e convidá-las a serem defensoras da vida”[xiv].

O mais recente capítulo da luta e do processo de conscientização histórico-social da Igreja contra o aborto foi à eleição, no dia 13/03/2013, do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio para exercer a função de pontífice. O cardeal Bergoglio adotou o nome de Papa Francisco. Setores da grande mídia, da universidade, pró-aborto e até mesmo dentro da Igreja viram a eleição do Papa Francisco como um momento de renovação e de modernidazação da Igreja. São setores que desejam uma Igreja próxima da cultura da morte (infanticídio, eutanásia, pena de morte, aborto, etc) e longe do evangelho e da luta em prol da dignidade da pessoa humana. Por exemplo, dentro da Igreja os setores que se alto proclamam de progressistas, modernos e de vanguarda teológica viram na eleição do Papa Francisco um momento de “descongelar o Concílio [Vaticano II]”[xv] e, com isso, flexibilizar a doutrina da Igreja, adaptando-a as exigências da sociedade neopagã.

Vale salientar que uma das exigências da sociedade neopagã é a prática, livre e indiscriminada, do aborto. Sobre as expectativas em torno da eleição do Papa Francisco, o jornalista Reinaldo Azevedo esclarece: “a imprensa mundial, a brasileira também, pôs na cabeça que Jorge Bergoglio se transformou no Papa Francisco com o objetivo de destruir os valores da Igreja Católica e transformá-la, quem sabe?; numa dessas ONGs consideradas progressistas. E, como todos sabemos, as pessoas só são progressistas hoje em dia se defenderem o casamento gay, a descriminação das drogas e, acima de todas essas causas, o aborto”[xvi].

No entanto, uma análise das declarações e documentos publicados pelo então cardeal Jorge Mario Bergoglio desmente radicalmente qualquer possibilidade dele ser algum defensor, mesmo que indiretamente, do aborto. Ainda como cardeal, o Papa Francisco deixou claro que "percebe-se mais uma vez que se avança deliberadamente para limitar e eliminar o valor supremo da vida e ignorar os direitos das crianças que nascerão. Quando falamos de uma mãe grávida, falamos de duas vidas, ambas devem ser preservadas e respeitadas, porque a vida tem valor absoluto"[xvii].

No livro El Jesuita[xviii], o então cardeal Jorge MarioBergoglio, citou a luta contra o aborto como a “batalha a favor da vida desde a concepção até a morte digna e natural". "Uma mulher grávida não leva no ventre uma escova de dentes, tampouco um tumor. A ciência ensina que, desde o momento da concepção, o novo ser tem todo o código genético". Na condição de pontífice, durante a benção apostólica que o Papa Francisco enviou aos fiéis, comunidades e paróquias que participam, no Brasil, da Semana Nacional da Família, realizada entre os dias 11 e 17 de agosto de 2013, ele criticou o aborto e defendeu a dignidade da pessoa humana, desde a concepção até a morte natural. Nas palavras do pontífice: “[...] diante da cultura do descartável, que relativiza o valor da vida humana, os pais são chamados a transmitir aos seus filhos a consciência de que esta deva sempre ser defendida, já desde o ventre materno, reconhecendo ali um dom de Deus e garantia do futuro da humanidade”[xix].

Na conclusão da missa do dia 12 de maio de 2013 na praça de São Pedro quando canonizou os Martires de Otranto e duas religiosas latino-americanas, o Papa Francisco disse que é “importante manter viva a atenção ao respeito pela vida humana desde o momento da concepção”. Na ocasião declarou apoio expresso à iniciativa europeia Um de nós, para garantir a tutela jurídica do embrião, e lembrou que "um momento especial para quantos fazem questão de defender a sacralidade da vida humana será o Dia da Evangelium vitae, que terá lugar no Vaticano, no contexto do Ano da Fé, a 15 e 16 de junho de 2013"[xx].

Já no dia 13/01/2014, na tradicional mensagem de início de ano aos embaixadores de seus respectivos países junto a Santa Sé, o Papa Francisco fez uma dura condenação do aborto, que chamou de parte da “cultura do descarte” e, por causa disso, “causa horror o simples pensamento de que existam crianças que jamais poderão ver a luz do dia, vítimas do aborto”[xxi].

Ao contrário do que esperavam alguns setores da sociedade e lamentavelmente da própria Igreja, setores que lutam arduamente em prol do aborto e de outros fatores que compõem a cultura da morte, o Papa Francisco não é um modernista radical, que deseja, a qualquer custo, destruir a Igreja e, com isso, legalizar e estimular a prática do aborto. Pelo contrário, o Papa Francisco é um guardião da defesa da vida, da dignidade da pessoa humana e dos valores inegociáveis, tais como: vida, família e a educação dos filhos. Por isso, ele é um incansável defensor da “promoção da vida humana, de sua concepção até o final natural, a tutela da família fundada no casamento entre um homem e uma mulher e a educação dos filhos"[xxii].

O Papa Francisco se encontra dentro da longa tradição, que remonta aos apóstolos de Jesus Cristo, de defesa da vida e da família. Dentro dessa tradição existem direitos que não podem ser negociados, justamente porque são direitos inalienáveis da vida e da pessoa humana. Sobre essa questão, o Papa João Paulo II, na famosa mensagem pelas comemorações do XXXII Dia Mundial da Paz, enfatiza, de forma muito específica, que entre os direitos específicos o “primeiro é o direito fundamental à vida. A vida humana é sagrada e inviolável desde a sua concepção até seu fim natural. [...]. O desenvolvimento de uma cultura orientada nesse sentido estende-se a todos as circunstancias da existência e assegura a promoção da dignidade humana”[xxiii].

Ainda sobre os valores inegociáveis, dos quais a vida é o primeiro e mais importante valor que não pode ser negociado, o Papa João Paulo II, na encíclica Evangelium Vitae, afirma que “urge, pois, redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais e congênitos que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum Estado poderá jamais criar, modificar ou destruir, mas apenas os deverá reconhecer, respeitar e promover”[xxiv]. Entre os valores inegociáveis, como bem salientou o Papa João Paulo II, que os grupos sociais e o Estado devem reconhecer, respeitar e promover; se encontra a vida humana. É por isso que jamais se deve pensar em se legalizar o aborto. O aborto é uma forma radical, extremista, de negar o direito inegociável à vida.  

Na sociedade contemporânea, especialmente a partir da década de 1970 que a Igreja, de forma mais acalorada, vem debatendo sobre o aborto. Em várias partes do mundo (Europa, EUA, América Latina, etc) a Igreja vem debatendo, quase que constantemente, o aborto. Esse debate tem ajudando a vários ramos das ciências humanas a tomarem uma maior consciência e, ao mesmo tempo, formularem novas posturas e reflexões críticas sobre a temática do aborto.

Apesar disso a palavra que muitos setores da sociedade esperam da Igreja, ou seja, uma permissão teológica para a prática do aborto, ainda não foi – e nunca será – proferida. A Igreja, fiel aos ensinamentos de Jesus Cristo e dos apóstolos, tem reiteradamente defendido toda e qualquer forma de vida humana, incluindo a vida não nascida, o feto ainda no ventre da mãe[xxv].

Por fim, é preciso frisar que “pelo seu ensino, a Igreja Católica contribuiu na difusão de uma responsabilidade coletiva em favor da dignidade humana. Ela o faz em escala mundial em favor de todo o ser humano”[xxvi].  É uma das principais formas que a Igreja possui de promover a dignidade humana é justamente combatendo todas as formas de manifestação e materialização da cultura da morte. Lamentavelmente o aborto aparece como o centro e o coroamento da cultura da morte. Por isso, para derrotar a cultura da morte e proteger a vida e a dignidade da pessoa humana é necessário que a Igreja, dia e noite, luta contra toda e qualquer forma de aborto.

[i] Sobre a relação entre a Igreja e o aborto, ao longo da história, encontra-se um grande numero de documentos eclesiais, que demonstram que a Igreja sempre condenou e lutou contra o aborto, em: CAPRILE G. Non uccidere. Il Magistero della Chiesa sull'aborto, Parte II, p. 47-300, Roma 1973.

[ii] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTIRNA DA FÉ. Declaração sobre o aborto provocado. op., cit, n. 7.

[iii] PAPA JOÃO XXIII. Carta Encíclica Mater et Magistra. Cidade do Vaticano, 15 de maio de 1961, n. 42.

[iv] SULLOWAY, A. W. O controle da natalidade e a doutrina católica. In: HARDIN, G. População, evolução, controle da natalidade. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967, p. 219.

[v] FAITANIN, Paulo. Embriologia tomista: doutrina da animação e individuação do embrião humano em Tomás de Aquino. In: Coletânea, Rio de Janeiro, v. 2, n.6, 2004, p. 167.

[vi] DOCUMENTOS DO CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes. São Paulo: Paulinas, 2013, n. 51.

[vii] DOCUMENTOS DO CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes. op., cit, n. 27.

[viii] PAPA JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Laetamur Magnopere, Cidade do Vaticano, 15 de agosto de 1997.

[ix] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 5 ed. São Paulo: Loyola, 2002, § 2270.

[x] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. op., cit, § 2272.

[xi]  CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. op., cit, § 2271.

[xii] CELAM. Documento de Aparecida. São Paulo: Paulinas, 2007, n. 98.

[xiii]  CELAM. Documento de Aparecida. op., cit, n. 469.

[xiv] CELAM. Documento de Aparecida. op., cit, n. 469.

[xv] QUEIRUGA, Andrés Torres. A atitude de Francisco é uma autêntica revolução, um vendaval de Espírito renovador. Entrevista concedida a José Manuel Vidal. In: Instituto Humanas Unisinos, Notícias, 17 de julho de 2013, p. 2.

[xvi] AZEVEDO, Reinaldo. O papa, o aborto e as coisas estúpidas que se escreveram e se escrevem a respeito. In: Blog do Reinaldo Azevedo. Disponível em http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-papa-o-aborto-e-as-coisas-estupidas-que-se-escreveram-e-se-escrevem-a-respeito/. Acessado em 14/01/2014.

[xvii] Sobre o pensamento do Papa Francisco sobre temas morais, como, por exemplo, o aborto, recomenda-se consultar: SAIBA O QUE O NOVO PAPA PENSA DE CELIBATO, ABORTO, CASAMENTO GAY, ETC. In: Folha de São Paulo, 14/03/2013; AZEVEDO, Reinaldo. Esse blog fica satisfeito; papa Francisco diz: “A Igreja não é uma ONG”. Vocês já leram isso! In: Blog do Reinaldo Azevedo. Disponível em http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/esse-blog-fica-satisfeito-papa-francisco-diz-a-igreja-nao-e-uma-ong-voces-ja-leram-isso/. Acessado em 22/01/2014; UM PAPA PROGRESSISTA NO SOCIAL E CONSERVADOR NA DOUTRINA. In: Notícias Uol, 14/03/2013. Disponível em http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2013/03/14/um-papa-progressista-no-social-e-conservador-na-doutrina.htm. Acessado em 22/01/2014.

[xviii] Bergoglio, Jorge Mario. El jesuita: conversaciones con el cardenal Jorge Bergoglio, sj. Entrevista concedida a Sergio Rubin y Fracesca Ambrogetti, 2008.

[xix] PAPA FRANCISCO. Mensagem para os fiéis, comunidades e paróquias que participam, no Brasil, da Semana Nacional da Família. In: Boletim CNBB, Disponível em http://www.cnbb.org.br/site/comissoes-episcopais/vida-e-familia/12594-papa-francisco-envia-mensagem-e-bencao-aos-participantes-da-semana-nacional-da-familia-2013. Acessado em 13/08/2013

[xx] L'OSSERVATORE ROMANO, n. 20, 19 de maio de 2013, versão portuguesa, p. 9.

[xxi] PAPA FRACISCO. Mensagem ao corpo diplomático sediado na Santa Sé. Cidade do Vaticano, 13/01/2014.  Sobre a repercussão das declarações do Papa Fracisco contra o aborto, recomenda-se conultar: PAPA FAZ CRÍTICA AO ABORTO E DIZ QUE A PRÁTICA EVIDENCIA A 'CULTURA DO DESCARTE'. In: Agência O Globo, 13/01/2014; PAPA FRANCISCO DIZ QUE ABORTO SIGNIFICA “DESCARTAR SERES HUMANOS”. In: Folha de São Paulo, 13/01/2014.

[xxii] VATICANO DEFENDE INTERFERÊNCIA EM 'VALORES INEGOCIÁVEIS'. In: DCI Digital, Internacional, 01/10/2008.

[xxiii] JEAN PAUL II. Message pour La célébration de La XXXII leme jourmée mundiale de la paix. Janivier 1999, n. 4. In: Documentation Catholique, n. 96, 1999, p. 1-6.

[xxiv] JOÃO PAULO II, Papa. Evangelium Vitae. São Paulo: Paulinas, 1999, n. 71.

[xxv] ROXO, Roberto Mascarenhas. Teologia e métodos contraceptivos. In: Revista Eclesiástica Brasileira, v. 27, fasc. 1, março de 1967, p. 69.

[xxvi] AGOSTINI, Nilo. Afirmação cristã da dignidade humana. In: SANTOS, Ivanaldo; POZZOLI, Lafayette (Orgs.). Direitos humanos e fundamentais e doutrina social. São Paulo: Boreal, 2012, p.23.

(25 de Março de 2014) © Innovative Media Inc.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra

Comentário: Rev. P. Higinio Rafael ROSOLEN IVE (Cobourg, Ontario, canad)
http://evangeli.net/evangelho
24-03-2014

«Nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra»

Hoje, no Evangelho, Jesus nos diz «que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria» (Lc 4,24). Jesus, ao usar este provérbio, está se apresentando como profeta.

“Profeta” é o que fala em nome de outro, o que leva a mensagem de outro. Entre os hebreus, os profetas eram homens enviados por Deus para anunciar, já com palavras, já com signos, a presença de Deus, a vinda do Messias, a mensagem de salvação, de paz e de esperança.

Jesus é o Profeta por excelência, o Salvador esperado; Nele todas as profecias têm cumprimento. Mas, igual como sucedeu nos tempos de Elias E Eliseu, Jesus não é “bem recebido” entre os seus, pois são estes quem cheios de ira «o joga fora da cidade» (Lc 4,29).

Cada um de nós, por motivo de seu batismo, também está chamado a ser profeta. Por isso:

1º. Devemos anunciar a Boa Nova. Para eles, como disse o Papa Francisco, temos que escutar a Palavra com abertura sincera, deixar que toque nossa própria vida, que nos reclame que nos exorte que nos mobilize, pois se não dedicamos um tempo para orar com essa Palavra, então se seremos um “falso profeta”, um “contraventor” ou um “charlatão vazio”.

2º Viver o Evangelho. Novamente o Papa Francisco: «Não nos pedem que sejamos imaculados, mas sim que estejamos sempre em crescimento, que vivamos o desejo profundo de crescer no caminho do Evangelho, e não baixemos os braços». É indispensável ter a segurança de que Deus nos ama, de que Jesus Cristo nos salvou, de que seu amor é para sempre.

3º Como discípulos de Jesus, ser conscientes de que assim como Jesus experimentou a rejeição, a ira, o ser jogado fora, também isto vai estar presente no horizonte de nossa vida cotidiana.

Que Maria, Rainha dos profetas, nos guie em nosso caminho.

Comentário: Rev. D. Santi COLLELL i Aguirre (La Garriga, Barcelona, Espanha)

Em verdade, vos digo que nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra

Hoje escutamos do Senhor que «nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra» (Lc 4,24). Esta frase —na boca de Jesus— tem sido para muitos e muitas —em mais de uma ocasião— justificação e desculpa para não complicar-nos a vida. Jesus Cristo só quer advertir aos seus discípulos que as coisas não serão fáceis e que freqüentemente, entre aqueles que pensamos que nos conhecem melhor, ainda será mais complicado.

A afirmação de Jesus é o preâmbulo da lição que quer dar à gente reunida na sinagoga e assim, abrir os seus olhos à evidencia de que pelo simples feito de serem membros do “Povo escolhido” não têm nenhuma garantia de salvação, cura, purificação (isso o confirmará com os dados da história da salvação).

Mas, dizia que a afirmação de Jesus, para muitas e muitos é, com excessiva freqüência, motivo de desculpa para não “comprometer-nos evangelicamente” no nosso ambiente cotidiano. Sim, é uma daquelas frases que todos aprendemos de memória e, que efeito faz!

Parece como gravada na nossa consciência de maneira particular e quando no escritório, no trabalho, com a família, no circulo de amigos, no nosso meio social quando devemos de tomar decisões compreensíveis à luz do Evangelho, esta “frase mágica” tira-nos para trás como dizendo-nos: —Não vale a pena esforçar-te, nenhum profeta é bem recebido na sua terra! Temos a desculpa prefeita, a melhor das justificações para não ter que dar testemunho, para não apoiar a aquele companheiro que é vitima da gestão da empresa, ou ignorar e não ajudar à reconciliação daquele casal conhecido.

São Paulo dirigiu-se em primeiro lugar aos seus: foi à sinagoga onde «Paulo foi então à sinagoga e, durante três meses, falava com toda liberdade, discutindo e persuadindo os ouvintes acerca do Reino de Deus» (At 19,8). Não acredita que isso é o que Jesus queria dizer-nos?

Havia muitas viúvas em Israel




Segunda-feira da 3ª semana da Quaresma

Comentário do dia
Guilherme de Saint-Thierry (c. 1085-1148), monge beneditino, depois cisterciense
A Contemplação de Deus, 12; SC 61 bis
http://evangelhoquotidiano.org/main.php?language=PT&module=commentary&localdate=20140324

«Havia muitas viúvas em Israel»

Senhor, a minha alma miserável está nua, gelada e transida; deseja ser aquecida pelo calor do teu amor. […] Na imensidade do meu deserto, na vastidão da vaidade do meu coração, não apanho ramitos como a viúva de Sarepta, mas apenas estes poucos galhos, para preparar a minha comida com um punhado de farinha e a vasilha de azeite, e depois entrar em minha casa e morrer (cf 1Rs 17,10ss) – ou por outra, não morrerei assim tão depressa; não, Senhor, «não morrerei, antes viverei, para narrar as obras do Senhor» (Sl 118,17).

Permaneço, pois, na minha morada solitária […] e abro a boca para Ti, Senhor, procurando alento. E, por vezes, Senhor, […] Tu pões-me qualquer coisa na boca do coração, mas não permites que eu saiba o que é. É certo que sinto um sabor tão doce e tão delicioso, tão reconfortante, […] que já não quero mais nada. Mas Tu não permites que eu compreenda, nem com a vista, nem com a inteligência […]; gostaria de retê-la, de a ruminar, de a saborear, mas ela passa depressa. […] Aprendo pela experiência o que dizes sobre o Espírito no Evangelho: «Não sabes de onde vem nem para onde vai […]. O Espírito sopra onde quer» (Jo 3,8). Descubro em mim que Ele sopra, não quando eu quero, mas quando Ele quer. […]

Devo elevar os olhos somente para Ti, para Ti que és a «fonte de vida», e «na tua luz, verei a luz» (cf Sl 36,10). Para Ti, Senhor, é para Ti que os meus olhos se voltam. […] Mas quanto tempo mais tardarás, durante quanto mais tempo se inclinará a minha alma para Ti, miserável, ansiosa, sem fôlego? Peço-Te: esconde-me «ao abrigo da tua face», guarda-me «das intrigas dos homens»; defende-me «na tua tenda contra as línguas maldizentes» (cf Sl 31,21).

Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria” (Lc 4,24)

Boa Nova para cada dia
http://www.loyola.com.br/liturgia_diaria.asp

“... nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”
 (Lc 4,24).

São Lucas narra o desentendimento entre os habitantes de Nazaré e Jesus na sinagoga.

Observemos o mais importante desta narrativa: Jesus se lamenta de não ser recebido como profeta em sua própria terra, dizendo: “... nenhum profeta é bem recebido em sua pátria” (Lc 4,24).

Ele acrescenta depois provas disto presentes nas Escrituras.
Conta como Elias não foi enviado por Deus aos judeus, mas sim a uma viúva estrangeira no tempo em que precisava se alimentar naquele tempo de fome. Deus preferiu salvar da fome seu profeta por meio de uma estrangeira, não por meio de alguma viúva judia. Isto é, Jesus quis dizer que Deus sabia que as viúvas judias não acolheriam o profeta Elias. Com Jesus aconteceu o mesmo em Nazaré: nenhum de seus habitantes, nem mesmo entre os parentes de Jesus, O acolheu.

A estória do sírio Naamã, lembrada neste Evangelho, confirma o mesmo que Jesus disse sobre Elias.

Depois da rejeição de Jesus, os moradores de Nazaré o expulsaram da sinagoga. Para eles não merecia sequer ser considerado um filho de Abraão. Era como um pagão.

E, pior ainda, queriam matá-Lo. Mas Jesus se livrou deles milagrosamente.

Temos aqui a imagem triste de Jesus rejeitado pelos seus parentes.
Em Igreja, nós hoje em dia, somos da família de Jesus.

É claro que devamos nos perguntar: que tratamento Lhe damos?

Nós O acolhemos ou rejeitamos?

Rejeitar Jesus pode acontecer de muitos modos. Nem é preciso enumerar cada um.


Por exemplo: rejeitamos Jesus quando nos deixamos levar pelo comodismo ou riquezas, achando que não precisamos mais nem Dele nem de Sua Igreja, deixando de frequentá-la. Jesus e Sua Igreja, diz-nos São Paulo, são um só Corpo. Ele é a Cabeça, e nós, seus membros. É o que São Paulo nos ensina em 1Cor 12. Se rejeitamos a Igreja, deixamos de ser seus membros, membros do Corpo de Cristo.

Nossa união com Jesus Cristo é um tipo de parentesco, de natureza espiritual. Como membros de seu Corpo não podemos nos desligar Dele. Com afeto pelos que Lhe pertencem, um dia Jesus disse: 

“Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15,5).

Se algum dia corremos o risco de desconsiderar nossa união com Jesus Cristo, perguntemos pelo nosso estado espiritual hoje mesmo. Se encontramos falhas de nossa parte, agora estamos em tempo de conversão. Precisamente agora é que devemos reforçar nosso relacionamento com Jesus. Seus parentes não foram dignos. Que isto não aconteça conosco.
Autor:
 Pe. Valdir Marques, SJ

Jesus em Nazaré

24/3/2014
 http://www.padremarcelorossi.com.br/detalheMensagemdoDia.php?autor=B&dia=24#

Texto Bíblico: “...” Lucas 4,24-30

Jesus encontra-se na sinagoga de sua cidade. Os habitantes de
Nazaré estão atentos às suas palavras, pois muitos tinham ouvido
falar a respeito dos seus ensinamentos e dos milagres realizados por
Ele. Jesus perscruta os corações e, percebendo a incredulidade
enraizada no coração de seus ouvintes, volve os olhos para eles, no
desejo de tocá-los e levá-los à conversão e, em tom mais severo, diz
que nenhum profeta é ouvido em sua própria terra, nem é
reconhecido pelos seus parentes. Palavras chocantes. Os gentios,
pelo contrário, demonstram mais fé em Deus do que os escolhidos de
Israel. Exemplifica Jesus: Elias foi enviado a uma viúva, em Sarepta,
na região da Sidônia, enquanto tantas outras viviam em Israel e, no
tempo do profeta Eliseu, “havia muitos leprosos em Israel, todavia,
nenhum deles foi curado, a não ser o sírio Naamã”. Suas palavras
soam ofensivas, pois, naquela época, os judeus julgavam os gentios,
isto é, os estrangeiros como pessoas distantes de Deus e, por
conseguinte, excluídas da Aliança divina. “Diante destas palavras,
todos na sinagoga se enfureceram”.
Jesus não se intimida e declara-os cegos diante da misericórdia de
Deus e de seu plano redentor para todas as nações. Com efeito,
considera Orígenes, “Ele acabara de ler uma profecia sobre a
salvação realizada pelo Messias. Salvação que irrompia no mundo
através do ministério de Jesus. Era o ano da graça e do perdão do
Senhor”. Ao rejeitá-lo, a população leva-o a não realizar milagres,
conforme comenta S. Ambrósio, “para não pensarmos que sejamos
constrangidos pelo amor à pátria. Na realidade, aquele que amava
todos os homens não podia deixar de amar os seus concidadãos,
mas eles mesmos, comportando-se de modo invejoso, renunciaram o
amor à pátria”. Então, exclama S. Cirilo de Alexandria, “Jesus
reporta-se aos pagãos, que o acolheriam e seriam curados de sua
lepra”.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

Monday of the Third Week of Lent - Daily Readings 24 March 2014


http://www.usccb.org/bible/readings/032414.cfm

Lectionary: 237
Reading 1 2 KGS 5:1-15AB

Naaman, the army commander of the king of Aram,
was highly esteemed and respected by his master,
for through him the LORD had brought victory to Aram.
But valiant as he was, the man was a leper.
Now the Arameans had captured in a raid on the land of Israel
a little girl, who became the servant of Naaman’s wife.
“If only my master would present himself to the prophet in Samaria,”
she said to her mistress, “he would cure him of his leprosy.”
Naaman went and told his lord
just what the slave girl from the land of Israel had said.
“Go,” said the king of Aram.
“I will send along a letter to the king of Israel.”
So Naaman set out, taking along ten silver talents,
six thousand gold pieces, and ten festal garments.
To the king of Israel he brought the letter, which read:
“With this letter I am sending my servant Naaman to you,
that you may cure him of his leprosy.”

When he read the letter,
the king of Israel tore his garments and exclaimed:
“Am I a god with power over life and death,
that this man should send someone to me to be cured of leprosy?
Take note! You can see he is only looking for a quarrel with me!”
When Elisha, the man of God,
heard that the king of Israel had torn his garments,
he sent word to the king:
“Why have you torn your garments?
Let him come to me and find out
that there is a prophet in Israel.”

Naaman came with his horses and chariots
and stopped at the door of Elisha’s house.
The prophet sent him the message:
“Go and wash seven times in the Jordan,
and your flesh will heal, and you will be clean.”
But Naaman went away angry, saying,
“I thought that he would surely come out and stand there
to invoke the LORD his God,
and would move his hand over the spot,
and thus cure the leprosy.
Are not the rivers of Damascus, the Abana and the Pharpar,
better than all the waters of Israel?
Could I not wash in them and be cleansed?”
With this, he turned about in anger and left.

But his servants came up and reasoned with him.
“My father,” they said,
“if the prophet had told you to do something extraordinary,
would you not have done it?
All the more now, since he said to you,
‘Wash and be clean,’ should you do as he said.”
So Naaman went down and plunged into the Jordan seven times
at the word of the man of God.
His flesh became again like the flesh of a little child, and he was clean.

He returned with his whole retinue to the man of God.
On his arrival he stood before him and said,
“Now I know that there is no God in all the earth,
except in Israel.”
Responsorial Psalm PS 42:2, 3; 43:3, 4

R. (see 42:3) Athirst is my soul for the living God.
When shall I go and behold the face of God?
As the hind longs for the running waters,
so my soul longs for you, O God.
R. Athirst is my soul for the living God.
When shall I go and behold the face of God?
Athirst is my soul for God, the living God.
When shall I go and behold the face of God?
R. Athirst is my soul for the living God.
When shall I go and behold the face of God?
Send forth your light and your fidelity;
they shall lead me on
And bring me to your holy mountain,
to your dwelling-place.
R. Athirst is my soul for the living God.
When shall I go and behold the face of God?
Then will I go in to the altar of God,
the God of my gladness and joy;
Then will I give you thanks upon the harp,
O God, my God!
R. Athirst is my soul for the living God.
When shall I go and behold the face of God?
Gospel LK 4:24-30

Jesus said to the people in the synagogue at Nazareth:
“Amen, I say to you,
no prophet is accepted in his own native place.
Indeed, I tell you, there were many widows in Israel
in the days of Elijah
when the sky was closed for three and a half years
and a severe famine spread over the entire land.
It was to none of these that Elijah was sent,
but only to a widow in Zarephath in the land of Sidon.
Again, there were many lepers in Israel
during the time of Elisha the prophet;
yet not one of them was cleansed, but only Naaman the Syrian.”
When the people in the synagogue heard this,
they were all filled with fury.
They rose up, drove him out of the town,
and led him to the brow of the hill
on which their town had been built,
to hurl him down headlong.
But he passed through the midst of them and went away.

PURIFICAI OS LEPROSOS (Mt 10,8)

24/03/2014
Segunda-feira, 24 de março de 2014
http://www.gloriososaojose.org.br/meditacoes.php                                               

2Rs 5,1-15                Sl 42,2-3; 43,3-4                  Lc 4,24-30

“... PURIFICAI OS LEPROSOS ...” (Mt 10,8)

“[Naamã] desceu, pois, e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme a ordem de Eliseu; sua carne se tornou sadia como a de uma criança e ficou limpa.” (2Rs 5,14)

O Senhor nos manda curar os leprosos. Nós temos a autoridade e o poder para curar os doentes e possuídos (Mt 10,1). Nós podemos curar os leprosos como a jovem criada da esposa de Naamã. Ela testemunhava o poder salvador de Deus (2Rs 5,2-3).

Nós podemos curar os leprosos sendo como os servos de Naamã. Devemos encorajar os leprosos, e a todos, a afogar o seu orgulho e obedecer a Deus (2Rs 5,13). Se eles, e também nós, obedecermos somente a Deus, seremos todos curados (Mt 8,8).

Nós curamos os leprosos sendo como Eliseu. Devemos dizer ao povo que o Senhor quer que O escutem ao invés de escutar o que quiserem (2Rs 5,10ss). Nós profetizaremos.

Finalmente, curaremos os leprosos e seremos curados de nossa própria condição de pecado sendo pessoas de fé, atravessando qualquer distância, gastando o que for preciso, e nos arrependendo de todos os pecados, de modo a receber a graça de Deus.

O Senhor cura até os doentes mais graves através de testemunhas, encorajadores, e profetas. Ele cura através de homens e mulheres de fé. Jesus continua a nos dizer: “... a tua fé te salvou; vá em paz e estejas curada[o] desse teu mal.” (Mc 5,34). Acredite; cure; seja curado(a).

Oração: Pai, começando nesta Quaresma, eu O obedecerei curando os doentes, ressuscitando os mortos, purificando os leprosos, e expulsando demônios (Mt 10,8).
Promessa: “... Agora sei que não há Deus em toda a terra a não ser em Israel!” (2Rs 5,15)
Louvor: Sendo o presidente de uma grande empresa, Roberto se humilha diariamente para receber Jesus na Eucaristia.

A DUREZA DE CORAÇÃO

Evangelho (Lucas 4,24-30)
http://www.domtotal.com/religiao/eucaristia/liturgia_diaria.php

Jesus Cristo, sois bendito, sois o ungido de Deus Pai!
No Senhor ponho a minha esperança, espero em sua palavra. Pois no Senhor se encontra toda graça e copiosa redenção (Sl 129,5.7).

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas.
Vindo a Nazaré, disse Jesus: 4 24 “Em verdade vos digo: nenhum profeta é bem aceito na sua pátria.
25 Em verdade vos digo: muitas viúvas havia em Israel, no tempo de Elias, quando se fechou o céu por três anos e meio e houve grande fome por toda a terra;
26 mas a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta, na Sidônia.
27 Igualmente havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu; mas nenhum deles foi limpo, senão o sírio Naamã”.
28 A estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga.
29 Levantaram-se e lançaram-no fora da cidade; e conduziram-no até o alto do monte sobre o qual estava construída a sua cidade, e queriam precipitá-lo dali abaixo.
30 Ele, porém, passou por entre eles e retirou-se.
Palavra da Salvação.

Comentário ao Evangelho

A DUREZA DE CORAÇÃO

A reação dos habitantes de Nazaré, diante da pregação de Jesus, foi de aberta rejeição. Foi tal o desprezo pelas palavras do Mestre, que eles decidiram eliminá-lo lançando-o de um precipício.
É possível imaginar a decepção de Jesus, diante da rejeição de seus conterrâneos. Ele tentou compreender a situação, rememorando as experiências de profetas do passado que, rejeitados por seu povo, foram bem acolhidos pelos estrangeiros. Assim aconteceu com Elias: num tempo de seca e fome, beneficiou uma mulher estrangeira, da terra dos sidônios. O mesmo sucedeu com Eliseu: curou da lepra um general sírio, ao passo que, em Israel, essa doença vitimava muitas pessoas.
A conclusão de Jesus foi clara: já que o povo de sua cidade insistia em não lhe dar atenção, ele sentiu-se obrigado a ir em busca de quem estivesse disposto a acolhê-lo. Aos duros de coração, no entanto, só restava o castigo.
Longe de nós seguirmos o exemplo do povo de Nazaré. Jesus quer encontrar, em nós, abertura para acolhê-lo e disponibilidade para converter-nos. Ninguém é obrigado a aceitar este convite. Entretanto, fechar-se para Jesus significa recusar a proposta de salvação que ele, em nome do Pai, veio nos trazer.

Oração
Espírito de docilidade, abre meu coração para aceitar o convite à conversão, que Jesus me dirige, em nome do Pai.

(O comentário do Evangelho é feito pelo Pe. Jaldemir Vitório – Jesuíta, Doutor em Exegese Bíblica, Professor da FAJE – e disponibilizado neste Portal a cada mês)
Sobre as oferendas

Transformai para nós, ó Deus, no sacramento que nos salva, estas ofertas que vos apresentamos como sinal da nossa submissão. Por Cristo, nosso Senhor.
Antífona da comunhão: Louvai o Senhor, povos todos, grande é o seu amor para conosco! (Sl 116,1s)
Depois da comunhão

Nós vos pedimos, ó Deus, que a comunhão no vosso sacramento nos purifique dos pecados e nos conduza à unidade. Por Cristo, nosso Senhor.

DISPOSIÇÕES PARA ENCONTRAR JESUS

Meditação diária de Falar com Deus
http://www.hablarcondios.org/pt/imprimir_meditacaodiaria.asp

TEMPO DA QUARESMA. TERCEIRA SEMANA. SEGUNDA-FEIRA

20. DISPOSIÇÕES PARA ENCONTRAR JESUS

– Fé e correspondência à graça. Purificar a alma para ver Jesus.

– A cura de Naamã. Docilidade e humildade.

– Docilidade na direção espiritual.

I. A MINHA ALMA desfalecida consome-se suspirando pelos átrios do Senhor. O meu coração e a minha carne exultam pelo Deus vivo, lemos no Intróito da Missa1. E para penetrar na morada de Deus, é necessário ter uma alma limpa e humilde; para ver Jesus, são necessárias boas disposições. O Evangelho da Missa no-lo mostra uma vez mais.

O Senhor, depois de um tempo dedicado à pregação pelas aldeias e cidades da Galiléia, volta a Nazaré, onde se tinha criado. Ali todos o conhecem: é filho de José e Maria. No sábado, foi à sinagoga, conforme era seu costume2,levantou-se para a leitura do texto sagrado e escolheu um trecho messiânico do profeta Isaías. São Lucas capta a densa expectativa que havia no ambiente: Enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-se; todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Tinham ouvido maravilhas sobre o filho de Maria e esperavam ver coisas ainda mais extraordinárias em Nazaré.

Não obstante, ainda que a princípio todos lhe davam testemunho e se admiravam das palavras de graça que procediam da sua boca3, não têm fé. Jesus explica-lhes que os planos de Deus não se baseiam na pátria ou no parentesco: não basta ter convivido com Ele, é necessária uma fé grande. E serve-se de alguns exemplos do Antigo Testamento: Havia muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi curado a não ser Naamã, o sírio. As graças do Céu são concedidas sem qualquer limitação por parte de Deus, sem levar em conta a raça – Naamã não pertencia ao povo judeu –, a idade ou a posição social. Mas Jesus não encontrou boas disposições nos ouvintes, na terra onde se havia criado, e por isso não fez ali nenhum milagre. Aquelas pessoas só viram nEle o filho de José, aquele que fabricava mesas e consertava portas. Não é este o filho de José?, perguntavam4. Não souberam ir além disso. Não descobriram o Messias que os visitava.

Nós, para podermos contemplar o Senhor, também devemos purificar a nossa alma. “Esse Cristo que tu vês não é Jesus. – Será, quando muito, a triste imagem que podem formar teus olhos turvos... – Purifica-te. Clarifica o teu olhar com a humildade e a penitência. Depois... não te hão de faltar as luzes límpidas do Amor. E terás uma visão perfeita. A tua imagem será realmente a sua: Ele!”5

A Quaresma é uma boa ocasião para intensificarmos o nosso amor com obras de penitência que preparem a alma para receber as luzes de Deus.

II. NA PRIMEIRA LEITURA da Missa, narra-se a cura de Naamã, general do exército sírio6, a quem o Senhor se refere no Evangelho. Este leproso ouvira dizer, a uma escrava hebréia, que vivia em Israel um profeta com poder para curá-lo. Depois de uma longa viagem, Naamã veio com o seu carro e os seus cavalos e parou à porta de Eliseu. Este mandou-lhe dizer por um mensageiro: Vai, lava-te sete vezes no Jordão e a tua carne ficará limpa.

Mas Naamã não entendeu esse caminho de Deus, tão diferente do que havia imaginado. Eu pensava que ele viria em pessoa e, diante de mim, invocaria o Senhor, seu Deus, poria a mão no lugar infetado e me curaria da lepra. Porventura os rios de Damasco, o Abana e o Farfar, não são melhores que todas as águas de Israel? Não poderia eu lavar-me neles e ficar limpo?

O general sírio queria curar-se, e tinha feito um longo trajeto para isso; mas levava consigo a sua própria solução sobre o modo de ser curado. E quando já regressava, dando por inútil a viagem, os seus servidores disseram-lhe: Mesmo que o profeta te tivesse mandado uma coisa difícil, não a deverias tu fazer? Quanto mais agora que ele te disse: Lava-te e ficarás curado.

Naamã refletiu sobre as palavras dos seus acompanhantes e, retornando, prontificou-se com humildade a cumprir o que o profeta Eliseu lhe havia dito. Desceu ao Jordão e banhou-se ali sete vezes, como lhe ordenara o homem de Deus, e a sua carne tornou-se tenra como a de uma criança. Acabou por aceitar com docilidade um conselho que podia parecer inútil. E ficou curado. As suas novas disposições interiores tornaram eficaz a oração de Eliseu.

Não poucas vezes nós também andamos doentes da alma, cheios de erros e defeitos que não acabamos de arrancar. O Senhor espera que sejamos humildes e dóceis às indicações e conselhos das pessoas por Ele estabelecidas para nos ajudarem a procurar a santidade. Não tenhamos soluções próprias quando o Senhor nos indica outras, talvez contrárias aos nossos gostos e desejos.

No que diz respeito à alma, ninguém é bom conselheiro nem bom médico de si próprio. Ordinariamente, o Senhor serve-se de outras pessoas. “Cristo chamou e falou diretamente com São Paulo. Mas, embora pudesse revelar-lhe naquele momento o caminho da santidade, preferiu encaminhá-lo a Ananias e ordenou-lhe que aprendesse a verdade dos lábios deste: Levanta-te, entra na cidade e lá te será dito o que deves fazer”7. São Paulo deixar-se-á guiar. A sua forte personalidade, manifestada de tantos modos e em tantas ocasiões, serve-lhe agora para ser dócil. Primeiro os seus companheiros de viagem o levam a Damasco; depois Ananias devolve-lhe a vista, e só a partir desse momento é que será já um homem útil para as batalhas do Senhor.

Mediante a direção espiritual, a alma prepara-se para encontrar o Senhor e para reconhecê-lo nas situações correntes do seu dia.

III. A FÉ NOS MEIOS que o Senhor nos oferece opera milagres. Certa vez, Jesus pediu a um homem que fizesse uma coisa que esse homem sabia por experiência que não podia fazer: estender a sua mão seca, sem movimento. E a docilidade, sinal de uma fé operativa, tornou possível o milagre: Estendeu-a e ela tornou-se tão sã como a outra8. Haverá ocasiões em que nos pedirão coisas que nos sentiremos incapazes de fazer, mas que serão possíveis se deixarmos que a graça atue em nós. E essa graça chegar-nos-á freqüentemente como conseqüência da docilidade que manifestemos na direção espiritual.

Houve dez homens, segundo narra o Evangelho, que ficaram curados por terem sido dóceis. Jesus Cristo dissera-lhes somente: Ide, mostrai-vos ao sacerdote. E enquanto eles iam andando, ficaram curados9. Em outra ocasião, o Senhor compadeceu-se de um mendigo que era cego de nascença, e diz-nos São João que Jesus cuspiu no chão, fez um pouco de lodo com a saliva e com o lodo ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: Vai, lava-te na piscina de Siloé. O mendigo não duvidou um instante. O cego foi, lavou-se e voltou com vista10.

“Que exemplo de firmeza na fé nos dá este cego! Uma fé viva, operativa [...]. Que poder continha a água, para que os olhos ficassem curados ao serem umedecidos? Teria sido mais adequado um colírio misterioso, um medicamento precioso preparado no laboratório de um sábio alquimista. Mas aquele homem crê; põe em prática o que Deus lhe ordena, e volta com os olhos cheios de claridade”11.

A cegueira, os defeitos, as fraquezas são males que têm remédio. Nós não podemos nada, mas Jesus Cristo é onipotente. A água daquela piscina continuou a ser água; e o barro, barro. Mas o cego recuperou a vista, e depois, além disso, alcançou uma fé mais viva no Senhor. É assim que a fé dos que encontram Jesus se mostra tantas vezes ao longo do Evangelho.

Sem docilidade, a direção espiritual é estéril. E não poderá ser dócil quem se empenhe em ser teimoso, obstinado, incapaz de assimilar uma idéia diferente da que já tem ou da que lhe dita uma experiência que foi negativa por não ter contado com a ajuda da graça. O soberbo é incapaz de ser dócil, porque, para aprender, é necessário estarmos convencidos de que há coisas que ainda não conhecemos e de que precisamos de alguém que nos ensine. E para melhorarmos espiritualmente, devemos estar convencidos de que não somos ainda tão bons quanto Deus espera que sejamos.

Nos assuntos da nossa vida interior, devemos estar prevenidos e manter uma prudente desconfiança em relação aos nossos próprios juízos, para podermos aceitar outro critério diferente ou oposto ao nosso. E devemos deixar que Deus nos faça e refaça através dos acontecimentos e das inspirações e luzes que venhamos a receber na direção espiritual: com a docilidade do barro nas mãos do oleiro, sem oferecer resistência, com espírito de fé, vendo e ouvindo o próprio Cristo na pessoa que orienta a nossa alma. Assim nos diz a Sagrada Escritura: Desci então à casa do oleiro e encontrei-o ocupado a trabalhar no torno. Quando o vaso que estava a modelar não lhe saiu bem, como costuma acontecer nos trabalhos de cerâmica, pôs-se a trabalhar em outro do modo que lhe aprouve [...]. Sabei que o que é a argila nas mãos do oleiro, isso sois vós nas minhas12.

Disponibilidade, docilidade, deixar-se modelar e remodelar por Deus quantas vezes for necessário. Este pode ser o propósito da nossa oração de hoje, que poremos em prática com a ajuda da Virgem.

(1) Sl 83, 3; Intróito da Missa da segunda-feira da terceira semana da Quaresma; (2) Lc 2, 16; (3) Lc 4, 22; (4) ib.; (5) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 212; (6) cfr. 2 Rs 5, 1-15; (7) Cassiano, Colações, 2; (8) cfr. Mt 12, 9 e segs.; (9) Lc 17, 11-19; (10) Jo 9, 1 e segs.; (11) Josemaría Escrivá, Amigo de Deus, n. 193; (12) Jer 18, 1-7.

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