quinta-feira, 20 de março de 2014

Parábola do mau rico e do pobre Lázaro - Lucas 16, 19-31

20/3/2014
Dom Fernando
http://www.padremarcelorossi.com.br/detalheMensagemdoDia.php?autor=B&dia=20#

Parábola do mau rico e do pobre Lázaro

Texto Bíblico:  Lucas 16, 19-31

A parábola não fala de um rico anônimo, voluntariamente cruel ou
desdenhoso. Ele simplesmente ignora o pobre, embora este
permaneça à sua porta. Exclama S. Jerônimo: “Ó mais infeliz entre os
homens, vês um membro do teu corpo prostrado diante da porta e
não tens compaixão. Em meio às tuas riquezas, o que fazes do que
te é supérfluo?” Em muitos corações brama a mesma indignação ao
verem tantos famintos, desprezados e rejeitados. Quantos, porém,
vivem ao lado da miséria, sem vê-la, indiferentes e alheios ao
sofrimento dos indigentes. O abismo entre Lázaro, no céu, e o rico,
no inferno, foi criado durante sua vida terrena. Ouve-se a dura
repreensão de S. Gregório Nazianzeno: “Imitai a imparcialidade de
Deus, e não existirão mais pobres”. Forte apelo para despertar o
amor e a responsabilidade para com os pobres, quer em nível social
quer em âmbito de vida particular.

O nome Lázaro, dado por Jesus ao pobre, significa “Deus é meu
auxílio”. Apesar de uma vida adversa e sofredora, ele não perde sua
esperança em Deus. Seus olhos contemplam os tesouros do céu. O
mau rico nada vê além das riquezas terrenas, pois permanece preso
aos bens materiais e aos prazeres humanos. Preocupado em buscar a
felicidade terrena, nem nota o que se passa ao seu redor. Seu
coração permanece fechado e vazio. Observa S. Agostinho: “Jesus
não se referiu ao nome do rico, mas disse o nome do pobre. O nome
do rico andava de boca em boca, mas Deus não o nomeia;
silenciavam o nome do pobre, mas Deus o revela. Assim, Deus, que
habita no céu, silencia o nome do rico porque não o encontra inscrito
no céu. Porém, declara o nome do pobre porque aí o encontra
inscrito, por sua própria solicitação”.

Pródiga em imagens, a parábola retrata a retribuição pessoal
concedida a Lázaro e traça os sofrimentos do rico, logo após a morte.
Não se espera o fim dos tempos ou o julgamento último. A morte já
os introduz na eternidade, marcada por um destino irrevogável.
Estaria Jesus sendo muito severo? Já no Antigo Testamento, ao se
falar da esmola, sugerem-se consequências para a eternidade. Se ela
“cobre uma multidão de pecados”, é necessário que ela não se
resuma só à dádiva material. Unindo-se à caridade, ela comporta
também um cuidado pessoal com o infeliz, pobre ou desamparado.
Pois, diz S. Gregório de Nissa, “os pobres são os administradores de
nossa esperança”.

O propósito da parábola é traduzir, com veemência e ardor, um apelo
à conversão, exortando: afastem-se, de todos, as trevas do egoísmo
e da ganância, do indiferentismo face à miséria do próximo, e abrase
o seu coração à generosidade e ao amor dadivoso e
desinteressado.

Clama S. Hilário de Poitiers: “Deus não é medo,
castigo, remorso, mas boa nova, amor, Ele é Pai”. Recordando a
passagem do Evangelho: “com a medida com que medis sereis
medidos”, S. Agostinho insiste: “ao rico, no tormento, é negada a
misericórdia, porque não quis usar de misericórdia em sua vida. Por
isso, quando em meio aos sofrimentos, ele invoca a piedade, não é
ouvido, porque sobre a terra não acolheu as súplicas do pobre”. S.
Lucas fustiga a dureza do coração, pois o Senhor está sempre pronto
a perdoar e acolher os que estão abertos a Deus e ao próximo. A luz
divina, que penetra o espírito humano vem do alto, qual apelo ao
amor, e quer transfigurar o coração, a mente e o desejo de todo
pecador, para que nele a esperança tome o lugar da angústia.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

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